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Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO



O fim do apartheid, completa hoje 20 anos, com novas relações económicas para a África do Sul. Perceba onde ganha e perde o país depois de Mandela.

Em 1979, quando o Standard Bank lançou "Pioneer Bank in a Pioneer Land", um livro sobre essa mesma instituição, o relato tinha o seu quê de nostalgia. O maior banco sul-africano - então um ramo do banco britânico Standard Chartered - passara grande parte dos primeiros anos a desbravar novos caminhos, acompanhando o percurso de Cecil Rhodes e de outros prospectores de ouro nas suas explorações em África. Mas, por volta de finais dos anos 70, teve que operar na defensiva, num cenário marcado por sanções económicas e numa altura em que se encontrava fortemente dependente do mercado interno sul-africano.

 

Foi preciso uma década para que F.W. de Klerk comunicasse no parlamento branco - faz hoje, dia 2, precisamente 20 anos - que os seus dias de domínio do país tinham chegado ao fim. Mas, com a África do Sul agora mais aberta ao resto do mundo, esse rótulo de pioneiro volta a assentar muito bem ao Standard, um banco que tem vindo a virar-se cada vez mais para esse continente africano rico em recursos e para os grandes países emergentes, sobretudo os "Brics" - Brasil, Rússia, Índia e China.

  

A nova estratégia deste banco remete para urna tendência crescente no mundo dos negócios na África do Sul. Este período de expansão para o estrangeiro está a movimentar não só as empresas mineiras, que, por norma, tinham uma incidência mais internacional, mas outros sectores também, da finança ao retalho, passando pelas telecomunicações, bens e serviços e consumo.

 

"Estamos perante uma nova ortodoxia," afirma Jacko Maree, director executivo do Standard, banco que, nos últimos três anos, orquestrou acordos no valor de milhares de milhões de dólares com o Industrial and Commercial Bank of China e com o Troika, o segundo maior banco de investimento da Rússia. Em 2007, o Standard vendeu uma participação de 20% ao ICBC e adquiriu um terço do Troika no ano passado.

 

O investimento dos Bric na África do Sul é menos pronunciado do que noutras partes do continente - de facto, 4 mil milhões de euros dos 7 mil milhões de euros de investimento da China passaram pelo Standard. As ligações comerciais com este país estão a intensificar-se. No ano passado, a China estabeleceu-se como o maior parceiro de negócios do país, destronando a Alemanha.

 

Empresas impedidas de fazer negócios

 

Impedidas de fazer negócios na maioria do continente africano durante a era do apartheid, as empresas sul-africanas estão agora a recuperar o tempo perdido no seu próprio continente. As ligações com outros países emergentes - também eles interessados nos recursos africanos e nesse mercado de consumidores em franco - estão a aumentar fortemente. O ritmo de crescimento económico estão a motivar uma nova política de externa que, desde o fim do apartheid, tem privilegiado as ligações com a Ásia, a América Latina e África, num esforço com vista a reduzir a dependência histórica da Europa e dos EUA.

 

"A África do Sul está a tornar-se num timoneiro empresarial de África, uma vez que conta com mais empresas pan-africanas do que qualquer outro pais de África, o que lhe garante assim um lugar à mesa dos Bric," afirma Michael Power da Investec Asset Management, sedeada na Cidade do Cabo.

 

E até mesmo empresas que antes eram bastiões do apartheid estão a aderir a este movimento. O Naspers, um grupo editorial de origem afrikander, tem vindo a agarrar negócios nos media, nas telecomunicações e sobretudo nos negócios da Internet no Brasil, China, Rússia, bem como noutros mercados de elevado crescimento - em Setembro último comprou a empresa brasileira BuscaPé, uma empresa de comércio electrónico altamente rentável por 342 milhões de dólares. A Naspers detém também uma percentagem na Tencent, um grande portal chinês de Internet.

 

A Sasol, empresa que, durante o jugo branco, desenvolveu uma tecnologia para converter carvão em petróleo para mitigar o impacto do embargo internacional às vendas de crude para a África do Sul, estabeleceu acordos nos últimos dois anos com vista a desenvolver fábricas em países como a China, Índia, Uzbequistão e Indonésia.

 

As empresas sul-africanas têm vindo a aproveitar esta tendência, por razões várias. E o mais importante talvez seja mesmo a cultura de negócios das empresas do país. Os gestores sul-africanos são vistos como menos avessos ao risco do que as suas congéneres na Europa e nos EUA. A diversidade étnica do país e a história recente marcada por alguns tumultos implica que tendem a ser mais abertos a diferentes culturas e menos dogmáticos quanto aos métodos de negócio. As empresas tornaram-se adeptas do trabalho com parceiros locais, influenciando o curso dos negócios, isto apesar de não terem em princípio total controlo.

 

O próprio isolamento na era do apartheid obrigou as empresas a serem mais criativas. Mas as tendências pós apartheid também ajudaram bastante. A maior capacidade económica dos negros, fruto de uma política introduzida nos anos 1990 e no âmbito da qual uma elite de gestores negros gerou milhares de milhões de dólares de capital, que seriam transferidos posteriormente para empresas de negros, tornou as empresas sul-africanas mais aceitáveis em África e noutros mercados emergentes. As empresas sul-africanas começaram também a ganhar experiência na venda de seus produtos à classe emergente sul-africana e aos grupos com rendimentos mais baixos, ganhando assim um novo fôlego para se expandirem para mercados semelhantes. "As empresas africanas não são tão temerárias como as suas concorrentes. Sabem o que funciona e o que não funciona e o factor proximidade também ajuda," afirma Power.

 

Mercado menor que o de economias emergentes

 

A dimensão é um factor igualmente importante. Com uma população com menos de 50 milhões de habitantes, o mercado interno da África do Sul é menor do que o de economias emergentes gigantes, obrigando assim as empresas a serem flexíveis, em vez de se centrarem no volume. Mas o mercados de capitais local é relativamente grandes quando comparados com a produção económica, permitindo deste modo ás empresas acederam a fundos mais facilmente do que alguns dos seus concorrentes nos países em desenvolvimento. A capitalização da bolsa de Joanesburgo é cerca duas vezes superior o valor do PIE, enquanto em muitos países o valor das empresas cotadas é inferior à produção anual do todo das suas economias.

 

O país conta com mercados de dívida sofisticados onde as empresas podem aceder a fundos a longo prazo. "A África do Sul tem, de longe, o mercado de capitais mais sofisticado quando comparado com outras economias em desenvolvimento. Tínhamos uma capacidade de nos financiar que era desproporcional à nossa dimensão interna," afirma Maree do Standard.

 

E a juntar a tudo isto temos ainda o facto de as empresas terem sido instadas pelo seu governo a fazerem negócios nos mercados emergentes. Desde meados dos anos 90 que o Congresso Nacional Africano tem vindo a promover um eixo a Sul, ligando as grandes nações emergentes e África. A ideia consiste, em parte, em fazer frente ao domínio político norte-americano com o reforço das suas instituições multilaterais.

 

Há sete anos, a África do Sul juntou-se ao Brasil e à Índia com vista a formar o G3, também conhecido por Ibsa. Apesar de a sua economia ser, de longe, a menor das três, a influência do país no continente africano confere à África do Sul um peso desproporcionado, tornando-a num parceiro bastante apelativo para os Bric quando os mesmos começaram e exercer o seu músculo diplomático. A importância do país ficou bem patente no ano passado, em Copenhaga, quando a África do Sul - juntamente com o Brasil e a China - assumiram um papel activo nas negociações sobre as alterações climáticas, dando lugar ao nascimento do chamado grupo Basic.

 

Vai demorar algum tempo até que estas ligações se desenvolvam. O governo está preocupado com o elevado grau de dependência do exterior e insiste que os interesses nacionais têm que ser tidos em linha de conta, com os líderes a avisarem quanto aos perigos de uma nova relação colonial. Na verdade, o governo impôs quotas temporárias sobre as importações têxteis em 2007 e 2008. Nas negociações de fusão entre a MTN e a Bharti Airtel, a África do Sul desenvolveu a ideia de que essa a nova entidade deve ser ouvida tanto em Joanesburgo como em Mumbai, isto apesar da maior escala das operações indianas.

 

E é pouco provável que as empresas sul-africanas globalizadas venham a cotar as suas acções e mudar as suas sedes para o estrangeiro, como aconteceu com grupos como o Anglo American e o SAB no final dos anos 90, grupos este que na altura se mudaram para Londres.

 

Ayanda Ntsaluba, director geral no ministério do Exterior em Pretória, afirma que o governo mantém conversações regulares com empresas como a Standard e a MTN e apoia a cooperação entre essas empresas e as suas congéneres chinesas, indianas ou Brasileiras. "Estamos a encorajar um número cada vez maior de empresas sul-africanas a estabelecerem-se no mundo emergente," acrescenta.

 

 

Negócios portugueses na África do Sul

 

A África do Sul é um dos países que acolhe uma das maiores comunidades portuguesas. Mas, esta importância não de reflecte a nível económico. A presença de algumas grandes empresas portuguesas no país anfitrião do Mundial de Futebol - Sonae, Corticeira Amorim e Cimpor - Portugal apenas exportou 48,22 milhares de euros, de bens, de Janeiro a Novembro de 2009 para a África do Sul, o que representou uma quebra de 32,7% face ao ano anterior. Já ao nível dos serviços as exportações aumentam para 56,8 mil euros. Portugal enquanto fornecedor de bens à África do Sul está em 62º lugar e sobe 38 lugares ao nível dos serviços. Ainda de acordo com dados do INE, em 2008, havia 507 empresas portuguesas a exportar para a África do Sul. Já em termos de Investimento Directo Estrangeiro, Portugal investiu, de Janeiro a Novembro, 2,11 milhões de euros, um valor que compara com os 2,59 milhões de euros registados no total de 2008. A presença portuguesa neste país é sobretudo dominada por pequenos empresários.

RODAPÉ